
A operação militar dos Estados Unidos que resultou na invasão da Venezuela e na captura do presidente Nicolás Maduro, no sábado (3), acendeu um alerta em toda a região. Especialistas afirmam que a ação, ordenada pelo presidente norte-americano Donald Trump, viola a Carta das Nações Unidas e fere o princípio da autodeterminação dos povos, deixando todos os países latino-americanos expostos a futuras intervenções.
Para Williams Gonçalves, professor titular aposentado de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o desrespeito à soberania venezuelana cria um precedente perigoso. “Todo o nosso subcontinente está à mercê dos interesses das empresas norte-americanas e do humor do presidente dos Estados Unidos”, disse. Ele classificou como “inadmissível” o apoio manifestado pelo presidente da Argentina, Javier Milei, e por grupos políticos brasileiros, avaliando que tal posição contraria a tradição de defesa da independência regional.
Gonçalves, também pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU), argumenta que celebrar a intervenção equivale a convidar Washington a repetir o movimento em outros países. O especialista defende a união dos chefes de Estado da América Latina em fóruns multilaterais para condenar a ofensiva e pressiona as Forças Armadas brasileiras a sinalizar que não aceitarão ação semelhante em território nacional.
Antonio Jorge Ramalho da Rocha, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o governo Trump não demonstra compromisso com o direito internacional. “Ele enxerga a política externa como exercício de força motivado por interesses de curto prazo, o que torna o cenário global mais imprevisível e perigoso”, afirmou.
Na visão de Rocha, a invasão estabelece a possibilidade de interferência norte-americana em qualquer governo soberano da região. Ele cita Colômbia, Brasil e Peru como potenciais alvos e alerta para o estímulo à polarização interna: “Ao aprofundar divisões domésticas, os Estados Unidos ampliam espaço para seus interesses, que não coincidem com os das sociedades locais”.
As consequências imediatas já começam a surgir. Segundo o professor, a Colômbia deslocou tropas para a fronteira, enquanto o Brasil pode adotar medida semelhante. Caso Washington decida ocupar a Venezuela, Rocha prevê “um pesadelo comparável ao Vietnã” em território sul-americano.
Embora reconheça que o governo venezuelano enfrente baixa popularidade, Rocha reforça que a deposição de Maduro por força estrangeira constitui clara violação das normas internacionais. Ele defende o reforço do multilateralismo e uma atuação mais incisiva da Organização das Nações Unidas, apesar das limitações atuais do Conselho de Segurança.
Para os analistas, o ataque norte-americano redefine a lógica de segurança na América Latina, reintroduzindo o risco de intervenções militares externas em pleno século XXI. A expectativa é que os governos da região adotem posição conjunta em defesa da soberania e busquem mecanismos diplomáticos para conter a escalada do conflito.

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