
O Grupo Pão de Açúcar (GPA) anunciou nesta terça-feira (10) a assinatura de acordo com seus principais credores para iniciar um processo de recuperação extrajudicial que abrange R$ 4,5 bilhões em dívidas financeiras. O plano envolve, sobretudo, bancos como Itaú, Rabobank, HSBC e BTG Pactual, que concentram 46% dos créditos sujeitos à reestruturação — percentual superior ao mínimo de um terço exigido por lei para protocolar o pedido.
A opção pela recuperação extrajudicial permite que a empresa renegocie apenas parte do endividamento, diferentemente da recuperação judicial, que engloba todo o passivo. Obrigações correntes junto a fornecedores, parceiros comerciais e funcionários ficaram de fora, estratégia adotada para preservar o abastecimento das lojas e manter confiança na operação.
Com o protocolo, o GPA terá 90 dias para ampliar o apoio ao acordo até atingir maioria simples (50% + 1) dos créditos contemplados. Durante esse período, as obrigações financeiras com os credores participantes ficam suspensas, proporcionando fôlego para discutir ajustes na estrutura de capital.
Em nota, o grupo destacou que “o pagamento aos fornecedores segue normalmente” e que a iniciativa visa “fortalecer o balanço e assegurar sustentabilidade financeira de longo prazo”. O conselho de administração aprovou a medida por unanimidade.
No pregão da B3, as ações do GPA oscilaram fortemente e chegaram a entrar em leilão logo após a abertura, quando a queda superava 8%; o papel encerrou o dia com recuo de 2,93%, cotado a R$ 2,65.
A deterioração financeira da varejista já aparecia no balanço divulgado em fevereiro, que apontou capital de giro líquido negativo em cerca de R$ 1,2 bilhão e dívidas de curto prazo somando R$ 1,7 bilhão com vencimento em 2026. O endividamento total descrito era próximo de R$ 4 bilhões.
Além dos débitos financeiros, o GPA reconhece R$ 15 bilhões em disputas tributárias classificadas como perdas possíveis e cerca de R$ 17 bilhões em passivos trabalhistas, valores que não foram incluídos no pedido de recuperação extrajudicial.
Fontes próximas à companhia atribuem parte da fragilidade atual ao período em que o grupo francês Casino exercia o controle, entre 2012 e 2023. Nesse intervalo, o GPA reduziu sua receita bruta em 64%, vendeu diversos ativos e realizou a aquisição da colombiana Éxito por cerca de US$ 9 bilhões, operação revertida anos depois por montante muito inferior.
Desde maio de 2023, a família mineira Coelho Diniz passou a ser a maior acionista, com 24,6% de participação. A agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota do GPA para “CCC” no início de março, citando visibilidade limitada sobre a estratégia de médio prazo, liquidez pressionada e risco elevado de refinanciamento.
Para o advogado especializado em reestruturação empresarial André Moraes, “a recuperação extrajudicial cria uma janela de negociação rápida, mas exige que a companhia cumpra o cronograma de adesões para evitar a escalada do problema”.
O GPA informou que publicará, nas próximas semanas, detalhes adicionais do plano e os documentos relativos à reestruturação em seu site de relações com investidores.

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