Da tragédia grega ao Oscar: a história do tapete vermelho

Tapete vermelho é hoje sinônimo de flashes e vestidos de alta-costura, mas sua origem remete a um ritual temido na Grécia Antiga. Em 458 a.C., na peça “Agamenon”, de Ésquilo, o rei homônimo hesita antes de pisar num caminho de tapeçarias púrpuras preparado por Clitemnestra. O gesto, privilégio reservado aos deuses, prefigura sua morte e consolida o vermelho como marca de poder e exclusividade.

O símbolo só começou a se afastar do campo sagrado no início do século XX. A partir de 1902, a ferrovia New York Central Railroad passou a estender um tapete vermelho para conduzir os passageiros de primeira classe do trem de luxo 20th Century Limited, num serviço que ficou conhecido como red carpet treatment. A cor, obtida com tinturas caras como cochonilha e moluscos murex, transformou-se em indicador econômico: quem tinha direito ao percurso carmesim pertencia à elite financeira.

Hollywood incorporou o costume duas décadas depois. Em 1922, o showman Sid Grauman lançou mão do tapete vermelho na première de “Robin Hood”, com Douglas Fairbanks, no Egyptian Theatre. Apesar disso, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas só adotou oficialmente o item em 1961, quando a televisão a cores passou a exigir maior impacto visual na transmissão da cerimônia.

A tonalidade usada atualmente é cuidadosamente escolhida. O chamado “Academy Red”, variação de borgonha escuro, reage melhor às câmeras de alta definição, evitando distorções nos trajes. O tapete é tingido à mão, protegido por plástico e vigiado até minutos antes do início do Oscar, para que chegue impecável à entrada do Dolby Theatre.

Nas últimas três décadas, a passarela deixou de ser apenas via de acesso e virou espetáculo próprio. A virada ocorreu quando a apresentadora Joan Rivers passou a questionar celebridades com a frase “Quem você está vestindo?”, transferindo o centro das atenções da premiação para a indústria da moda. Hoje, marcas pagam somas elevadas para ter seus vestidos e joias destacados nesse corredor de 150 metros.

A tentativa mais recente de mudar a tradição ocorreu em 2023, quando a Academia experimentou um tapete cor de champanhe. O teste durou apenas uma edição, reforçando que, mesmo sob variações cromáticas, o termo red carpet segue arraigado ao imaginário popular.

De anúncio de poder divino a plataforma de marketing multimilionário, o tapete vermelho percorreu um trajeto de quase 2.500 anos. A cada temporada de premiações, o antigo presságio de húbris se converte em celebração pública da fama, separando, ainda hoje, o público anônimo do panteão contemporâneo das celebridades.

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