
Ambientes urbanos ruidosos expõem o corpo humano a um estressor invisível: o excesso de barulho. Segundo o psicanalista e consultor em saúde mental Genaldo Vargas, sons acima de 70 decibéis (dB) já sobrecarregam o organismo; a partir de 85 dB, o risco de dano auditivo e cardiovascular cresce de forma exponencial.
Como o ruído afeta o cérebro e o hormônio do estresse
O caminho do som começa no ouvido externo e termina no córtex auditivo, onde as ondas são decodificadas. Quando o volume é alto ou irregular, a amígdala cerebral identifica ameaça e aciona o sistema nervoso simpático. Esse mecanismo libera cortisol e adrenalina, elevando frequência cardíaca e pressão arterial. “O cérebro interpreta sons imprevisíveis como possíveis sinais de perigo”, explica Vargas.
Essa ativação constante produz ansiedade, dificuldade de concentração e fadiga mental. À noite, mesmo ruídos moderados podem fragmentar o sono profundo, perturbar o ritmo circadiano e reduzir a recuperação física, comprometendo imunidade, memória e humor.
Sinais de que o barulho já cobra um preço
Entre as consequências mais frequentes da poluição sonora estão:
- Perda auditiva progressiva;
- Tinnitus (zumbido persistente);
- Hiperacusia (hipersensibilidade a sons comuns);
- Distúrbios do sono e estresse crônico;
- Alterações metabólicas e vasculares, com impacto direto no coração;
- Dificuldades de aprendizado em crianças expostas a ambientes escolares barulhentos.
Fones de ouvido: aliados ou vilões
Modelos com cancelamento de ruído ajudam a reduzir o som ambiente, permitindo ouvir conteúdo em volumes mais baixos. O problema surge quando o usuário ultrapassa limites seguros para mascarar o entorno. Vargas recomenda a regra 60/60: até 60 % do volume máximo por no máximo 60 minutos contínuos, seguidos de intervalos. “Utilizar a regra 60/60 é uma orientação simples e eficaz”, reforça.
Misofonia: quando ruídos banais se tornam gatilhos
Entre 10 % e 20 % da população apresenta algum grau de misofonia, condição marcada por reação intensa a sons cotidianos como mastigação ou clique de caneta. Nesse caso, o desconforto está no tipo de som, não no volume, exigindo avaliação especializada.
Medidas práticas de proteção
Para minimizar danos, especialistas sugerem:
- Reduzir o tempo de permanência em locais acima de 70 dB;
- Fazer pausas auditivas ao longo do dia;
- Manter volume de dispositivos portáteis em níveis baixos;
- Usar protetores auriculares em shows, obras ou fábricas;
- Instalar cortinas, tapetes e vedação para melhorar o isolamento acústico em casa e no trabalho;
- Procurar um otorrinolaringologista diante de zumbido persistente, sensação de ouvido tampado ou perda de compreensão da fala.
Quando o som relaxa: o efeito ASMR
Nem todo estímulo auditivo é nocivo. O ASMR, resposta meridiana sensorial autônoma, provoca liberação de dopamina no núcleo accumbens e ativa o sistema nervoso parassimpático, reduzindo ansiedade e facilitando o sono. Sons suaves e previsíveis — como música relaxante — podem, portanto, contrabalançar os efeitos do ruído excessivo.
Em uma sociedade cada vez mais barulhenta, adotar limites seguros de exposição e investir em paisagens sonoras agradáveis se tornou parte essencial do cuidado integral com a saúde.

Faça um comentário