Polícia paulista e Cruz Vermelha unem esforços para achar desaparecidos

São Paulo – A Polícia Técnico-Científica de São Paulo firmou, nesta quinta-feira (5), um acordo de cooperação com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) para acelerar a identificação de desaparecidos a partir de 300 ossadas que hoje estão sob custódia do Instituto Médico Legal (IML) paulista. O convênio estabelece o uso de análise genética em larga escala e abre caminho para que parte do material seja comparado a perfis de familiares já registrados em bancos de dados oficiais.

Como a parceria foi estruturada

O entendimento entre as duas instituições prevê compartilhamento de protocolos, intercâmbio de especialistas e ampliação da capacidade laboratorial. A coordenação dos trabalhos ficará a cargo da Superintendência da Polícia Técnico-Científica, que deverá encaminhar cada amostra óssea ao laboratório de DNA forense do IML. O CICV oferecerá apoio técnico, treinamento e insumos para processamento das amostras.

Objetivo: dar nome às vítimas e respostas às famílias

De acordo com dados do governo paulista, mais de 11 mil pessoas seguem desaparecidas no estado. A expectativa é que o mapeamento genético das 300 ossadas permita solucionar parte dessas ocorrências e, ao mesmo tempo, reduzir o volume de restos mortais não identificados que permanecem nos necrotérios.

Para a perita criminal Maria Paula Valadares, responsável pelo laboratório de DNA do IML, a cooperação representa um avanço técnico indispensável. “Com o auxílio do Comitê, poderemos ampliar o processamento das amostras e avançar nas análises genéticas, contribuindo para esclarecer suas identidades e fornecer informações que poderão auxiliar em futuras investigações”, afirmou.

Coleta de material de familiares

O governo estadual recomenda que pessoas com parentes desaparecidos há mais de 30 dias agendem a coleta de material biológico pelo site do IML. O processo é gratuito e consiste em colher amostras de saliva ou sangue de parentes de primeiro grau, que depois são inseridas no banco de perfis genéticos. A compatibilidade entre o DNA dos familiares e das ossadas será verificada por meio de software especializado.

Metodologia de análise genética

Cada osso passará por limpeza química, extração de DNA, quantificação de material genético e amplificação por reação em cadeia da polimerase (PCR). As informações resultantes são transformadas em códigos alfanuméricos que, por sua vez, alimentam o Banco Nacional de Perfis Genéticos e a base estadual paulista. Quando ocorre correspondência estatisticamente significativa entre dois perfis, o sistema dispara um alerta para que peritos confirmem o vínculo biológico.

Importância humanitária e legal

Segundo Fernando Fornaris, coordenador de Proteção da Delegação do CICV para Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, o projeto também cumpre um papel de respeito às vítimas. “Trata-se de preservar a dignidade das pessoas falecidas e de seus familiares”, destacou. A identificação correta permite emissão de certidões de óbito, acesso a direitos previdenciários e encerramento oficial do status de desaparecido.

Capacidade ampliada de processamento

Atualmente, o IML paulista consegue analisar cerca de 150 amostras ósseas por ano. Com a chegada de equipamentos fornecidos pelo CICV e recursos do estado, a meta é dobrar essa capacidade até o fim do próximo semestre. O planejamento inclui a contratação de novos peritos, modernização da infraestrutura de armazenamento e atualização de softwares de bioinformática.

Integração de bancos de dados

Os perfis genéticos produzidos no programa serão integrados ao Sistema de Identificação Humana e de Desaparecidos, ferramenta federal que reúne informações de todos os estados brasileiros. A Polícia Civil de São Paulo também irá compartilhar dados com delegacias especializadas em pessoas desaparecidas, facilitando o cruzamento de dados com investigações em andamento.

Relevância para a segurança pública

Para além do aspecto humanitário, a identificação de desaparecidos por meio de DNA pode auxiliar em inquéritos criminais, pois restos mortais muitas vezes são encontrados em locais relacionados a homicídios, desastres ou grandes catástrofes. Ao revelar a identidade da vítima, os peritos fornecem subsídios para a linha investigativa e, eventualmente, para punição de responsáveis.

Procedimentos para familiares interessados

1. Acesse o site oficial do Instituto Médico Legal de São Paulo.
2. Selecione a opção “Cadastro de Familiar de Desaparecido”.
3. Preencha o formulário eletrônico com dados pessoais e informações sobre o desaparecido.
4. Agende data e local para coleta de material biológico.
5. Compareça à unidade com documento de identificação e comprovante de parentesco.

Após a coleta, o IML gera um código de rastreamento que permite ao familiar acompanhar o status da análise diretamente pela plataforma.

Próximos passos do acordo

Em até 60 dias, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha deverá entregar ao laboratório paulista um lote de reagentes importados e kits de purificação de DNA. Treinamentos presenciais e virtuais para equipes de necropsia, odontologia forense e genética também estão programados. Essas atividades fazem parte de um plano de ação conjunto que vigora por dois anos, podendo ser renovado mediante avaliação de resultados.

Panorama nacional e contexto internacional

No Brasil, iniciativas semelhantes já foram desenvolvidas no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco, estados que mantêm programas de identificação por DNA com apoio de entidades internacionais. O CICV atua em mais de 100 países oferecendo suporte técnico a governos na localização de pessoas desaparecidas em conflitos armados, migrações e desastres naturais.

Impacto esperado

A Secretaria da Segurança Pública estima que, com a análise dos 300 conjuntos ósseos, pelo menos 90 casos de desaparecimento possam ser resolvidos. Caso o índice de identificação seja superior, a base de dados servirá ainda para eventuais confrontos futuros, acelerando a solução de ocorrências recém-registradas.

Conclusão operacional

O acordo entre a Polícia Técnico-Científica de São Paulo e o CICV se apresenta como ferramenta estratégica para enfrentar o elevado número de pessoas em situação de desaparecimento no estado. Com aporte tecnológico, expansão de capacidade laboratorial e integração de bancos de DNA, o programa reforça o compromisso institucional de conferir nome e história às vítimas, além de oferecer respostas objetivas às famílias que aguardam esclarecimentos.

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