
Porto Alegre perdeu, nesta terça-feira (27), uma de suas mais importantes documentaristas visuais. A fotógrafa, historiadora e pesquisadora Irene Santos morreu aos 78 anos na capital gaúcha, cidade onde nasceu em 1947 e onde construiu toda a carreira dedicada a registrar a presença negra no Rio Grande do Sul. Reconhecida por unir pesquisa histórica e imagem, ela se formou em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e atuou até os últimos anos em projetos que mesclavam fotografia, memória coletiva e cultura afro-brasileira.
Trajetória acadêmica e formação autodidata
Filha de uma família de trabalhadores da zona norte da capital, Irene de Figueiredo Santos ingressou em 1968 no curso de História da UFRGS. Ainda na graduação, encantou-se pelos arquivos iconográficos do museu universitário, onde percebeu a ausência sistemática de fotografias que retratassem negros e negras em contextos de cidadania. Esse vazio motivou a jovem estudante a comprar, com recursos próprios, uma câmera analógica simples. A partir de então iniciou um percurso autodidata, registrando festas populares, terreiros de matriz africana, ensaios musicais, desfiles de Carnaval e cenas familiares que dificilmente chegavam aos acervos institucionais.
Na década de 1970, paralelamente à sala de aula, Irene colaborou com grupos de artes cênicas, fotografando espetáculos e bastidores. A convivência com atores e músicos a estimulou a experimentar ângulos pouco convencionais e a recorrer a oralidades para identificar pessoas fotografadas, estabelecendo o método que marcaria toda a sua produção: cada retrato era acompanhado de entrevistas, anotações sobre parentesco, profissão e participação comunitária.
Linguagem fotográfica centrada na dignidade
Ao longo de cinco décadas, Irene Santos formou um acervo composto por milhares de negativos, ampliações em papel de fibra e, a partir dos anos 2000, arquivos digitais. A pesquisadora defendia que a fotografia deveria “devolver dignidade às figuras negras que a história oficial tentou apagar”, como afirmou em diferentes palestras. Seu trabalho recusa o exotismo e privilegia enquadramentos frontais, em que o fotografado sustenta o olhar perante a câmera. Na curadoria das imagens, Irene optava por destacar expressões de cotidiano — famílias em frente às casas, trabalhadores em fins de expediente, foliões improvisando fantasias —, apostando na normalidade como ato político.
Negro em Preto e Branco: construção de uma referência
Publicado em 2005, o livro Negro em Preto e Branco – História Fotográfica da População Negra de Porto Alegre consolidou a visibilidade nacional de Irene. A obra reúne cerca de 200 fotografias produzidas entre o final do século XIX e meados dos anos 1970, resultado de uma coleta que envolveu conversas com descendentes, visitas a alfarrábios e digitalização de acervos domésticos. Cada imagem é acompanhada de texto contextualizador, fruto da pesquisa histórica realizada pela autora.
Em entrevista ao jornal Brasil de Fato, concedida em 2021, Irene avaliou o impacto do volume: “O livro provou a existência de negros honestos e trabalhadores em uma cidade racista como Porto Alegre. A fotografia analógica garantiu a heroica resistência de uma população invisível e que corria o risco de ser eliminada dos anais da História”. No ano seguinte ao lançamento, a publicação conquistou o Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria Literatura Especial, reforçando o reconhecimento da iniciativa acadêmica e artística.
Outras publicações, exposições e projetos multimídia
Não se restringindo à capital, a pesquisadora ampliou o olhar para a zona rural e quilombos do estado. Lançado em 2010, Colonos e Quilombolas – Memórias das Colônias Africanas de Porto Alegre relaciona registros fotográficos a depoimentos de moradores de áreas como Lomba do Pinheiro, Itapuã e Morrinhos. A autora investiga a formação de comunidades pós-abolição que mantiveram vínculos com a terra e com tradições ancestrais, comprovando a continuidade cultural afro-gaúcha.
A partir de 2015, Irene transferiu parte do acervo para plataformas digitais. O webdocumentário Outros Carnavais – Memória do Carnaval de Rua de Porto Alegre, 1930-1969 combina imagens em alta resolução, áudios de antigas rádios locais e depoimentos de sambistas. O projeto foi premiado em editais culturais federais e serve de fonte para pesquisadores do folclore e da música popular.
Em 2026, o Museu da UFRGS inaugurou a exposição A Força da Memória, dedicada exclusivamente ao percurso da fotógrafa. A mostra apresentou 120 fotografias restauradas, equipamentos originais utilizados pela artista e cadernos de campo onde anotava dados das famílias retratadas. Com curadoria coletiva de ex-alunos, a exposição atraiu mais de 15 mil visitantes nos primeiros dois meses em cartaz.
Reconhecimento da classe jornalística
A relevância de Irene na construção de uma narrativa visual sobre a população negra gaúcha foi destacada por profissionais da imprensa. Para a jornalista Jeanice Ramos, integrante do Núcleo de Jornalistas Afro-brasileiros do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, “Irene foi uma referência na fotografia do Rio Grande do Sul. Publicou Negro em Preto e Branco, Quilombos e Quilombolas, além de Carnaval. Perspicaz, deixa um legado significativo”.
Além das publicações autorais, Santos ministrou oficinas gratuitas em escolas da rede pública, orientou projetos de mapeamento fotográfico em quilombos e colaborou com a formação de novos profissionais negros na área de audiovisual. Seu acervo pessoal, em processo de catalogação, deve ser doado ao Centro de Documentação e Pesquisa da UFRGS, segundo familiares.
Últimos anos e contribuição permanente
Mesmo após completar 75 anos, a fotógrafa manteve rotina ativa. Em 2024, participou de seminário no Instituto Federal de Educação do Rio Grande do Sul (IFRS) sobre preservação de acervos familiares, apresentando técnicas simples de acondicionamento de negativos. No ano seguinte, colaborou como consultora voluntária em projeto de digitalização do arquivo fotográfico do bloco afro Odomodê, fundado em 1978.
Relatos de amigos próximos indicam que Irene estava envolvida em nova pesquisa sobre fotógrafos amadores negros do interior do estado, trabalho que permanecerá inédito. A causa oficial da morte não foi divulgada pela família, que pediu privacidade enquanto organiza as cerimônias de despedida. O velório e o sepultamento ocorrerão em Porto Alegre, em local e horário ainda não informados.
Legado para a memória afro-gaúcha
Com uma obra que ultrapassa o campo estético, Irene Santos reafirmou a fotografia como instrumento de legitimação histórica. Seu método, que combina oralidade, pesquisa documental e produção de imagens, tornou-se referência para estudiosos de cultura afro-brasileira, museólogos e educadores. A presença de suas fotografias em acervos públicos, livros didáticos e exposições itinerantes assegura que as trajetórias registradas permaneçam acessíveis a futuras gerações.
Ao falecer, a fotógrafa deixa um legado calcado na resistência contra o apagamento cultural. As instituições dedicadas à memória coletiva estudam formas de garantir a preservação integral dos negativos analógicos, ampliando o alcance do material para pesquisadores no Brasil e no exterior. Para o público, permanece a imagem de uma profissional que, sem alardes, dedicou a vida a iluminar biografias antes mantidas à sombra.

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