
A crescente popularização dos medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras” — que têm como princípios ativos substâncias como a semaglutida e a liraglutida — acendeu um sinal de alerta vermelho entre especialistas em saúde infantil no Brasil. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) emitiu um aviso formal direcionado a pais, responsáveis e profissionais de saúde, alertando para os graves perigos associados ao uso inadequado, off-label ou sem o devido acompanhamento médico desses fármacos na população infantojuvenil.
Embora a obesidade infantil seja uma condição de saúde pública complexa e de impacto crescente no país, o tratamento farmacológico não deve ser encarado como uma solução estética, rápida ou simplista. De acordo com os pediatras, o uso de medicações injetáveis para perda de peso na infância e adolescência exige critérios diagnósticos rigorosos, avaliação endocrinológica aprofundada e monitoramento constante para evitar complicações metabólicas e gastrointestinais severas.
O que diz a Sociedade Brasileira de Pediatria e as diretrizes regulatórias
A utilização de análogos do GLP-1 (como a liraglutida e a semaglutida) em pacientes jovens possui indicações muito restritas e regulamentadas por órgãos sanitários, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No Brasil, o uso dessas medicações é aprovado apenas para faixas etárias específicas — como adolescentes a partir de 12 anos em casos confirmados de obesidade grave —, e sempre sob prescrição médica especializada.
O grande ponto de preocupação manifestado pela SBP é a facilidade de acesso informal, o uso por automedicação impulsionado por tendências em redes sociais e a pressão estética exercida sobre jovens. A entidade ressalta que crianças e adolescentes estão em pleno processo de desenvolvimento físico, ósseo, hormonal e emocional. A introdução de fármacos que alteram drasticamente o esvaziamento gástrico e a sinalização neuroendócrina de saciedade sem a devida indicação pode interferir no crescimento saudável e mascarar transtornos alimentares subjacentes.
Efeitos colaterais e gravidade dos eventos adversos
Os médicos destacam que a administração dessas substâncias sem critério técnico aumenta significativamente a gravidade dos eventos adversos. Entre as reações adversas mais frequentes registradas na população jovem estão distúrbios gastrointestinais intensos, incluindo náuseas persistentes, vômitos, diarreia severa, dores abdominais e constipação.
Em cenários de uso descontrolado ou sem supervisão médica diária, esses sintomas podem evoluir para complicações mais sérias, como desidratação aguda, desequilíbrio eletrolítico, hipoglicemia e, em casos mais raros, inflamações pancreáticas (pancreatite) e problemas na vesícula biliar. Além disso, a perda de massa magra (músculos) decorrente de um emagrecimento acelerado e desequilibrado pode prejudicar a densidade mineral óssea em uma fase em que o corpo está em rápida formação.
O papel central da mudança de estilo de vida no tratamento da obesidade infantil
Diante desse cenário, a comunidade médica reforça de forma unânime que qualquer abordagem para a obesidade na infância e na adolescência deve ter como pilar fundamental a modificação do estilo de vida. O tratamento de primeira linha permanece baseado na reeducação alimentar, no incentivo à prática regular de atividades físicas adequadas para a idade e na redução do tempo de tela e sedentarismo.
A intervenção medicamentosa, quando necessária, surge apenas como uma ferramenta coadjuvante para casos de obesidade grave associada a comorbidades (como hipertensão arterial ou resistência à insulina), e nunca como substituta do acompanhamento multidisciplinar, que envolve médicos pediatras, endocrinologistas, nutricionistas e psicólogos. A orientação aos pais é clara: nunca administrar medicamentos para emagrecer em filhos sem a avaliação e a prescrição formal de um profissional habilitado.
O que você precisa saber sobre o uso de canetas emagrecedoras por crianças:
Crianças podem usar canetas emagrecedoras para perder peso?
O uso só é permitido para adolescentes a partir de 12 anos em situações específicas de obesidade grave aprovadas pela Anvisa e sempre com prescrição e acompanhamento de um pediatra ou endocrinologista. O uso em crianças menores ou sem indicação técnica é contraindicado.
Quais são os principais riscos de dar esses medicamentos a jovens sem orientação médica?
Os riscos incluem desde complicações gastrointestinais graves (vômitos intensos, diarreia e desidratação) até desequilíbrios hormonais, perda de massa muscular, prejuízo ao crescimento ósseo e desenvolvimento de transtornos alimentares.
O que motivou o alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)?
A preocupação com o aumento do uso inadequado e sem prescrição, impulsionado pela busca por padrões estéticos em redes sociais e pela falsa impressão de que essas medicações são isentas de riscos.
Qual é o tratamento recomendado para a obesidade na infância?
A prioridade é sempre a mudança no estilo de vida, com acompanhamento de nutricionistas e pediatras para promover uma reeducação alimentar saudável, prática de exercícios físicos e apoio psicológico, deixando os remédios apenas para casos excepcionais.

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