
A inteligência artificial generativa (GenAI) continua no centro das atenções e das pautas estratégicas no ambiente corporativo global e nacional. No entanto, a transição entre o entusiasmo inicial com a tecnologia e a real captura de valor financeiro tem se mostrado um desafio complexo para a maior parte das corporações. Segundo um estudo recente conduzido pelo TEC.Institute em parceria com a consultoria Peers Consulting + Technology e publicado pela MIT Technology Review Brasil, apenas 40,7% das empresas brasileiras conseguem transformar seus investimentos em IA generativa em resultados financeiros comprovados e mensuráveis.
O levantamento lança luz sobre o momento atual de maturidade do mercado, revelando que a euforia com a implementação de ferramentas automatizadas de linguagem e geração de conteúdo está dando lugar a uma fase de cobrança por eficiência, governança e retorno sobre o investimento (ROI). A pesquisa demonstra que a simples adoção de soluções tecnológicas não garante o sucesso do negócio sem uma reestruturação profunda de processos internos e gestão de dados.
O fenômeno do “vale da escala” e a desaceleração nos ganhos
Um dos dados mais reveladores apontados pelo estudo é a existência do chamado “vale da escala” no processo de adoção da inteligência artificial generativa. A trajetória de percepção de valor por parte das organizações não é linear e apresenta variações expressivas conforme o tempo de uso da tecnologia avança dentro do ambiente corporativo.
Entre as empresas que possuem menos de seis meses de experimentação com ferramentas de GenAI, 35,1% relatam obter resultados que superaram as expectativas iniciais. Esse otimismo inicial é impulsionado principalmente pela facilidade de implementação de projetos-piloto de baixo custo e ganhos rápidos de produtividade individual em tarefas simples. Contudo, quando as organizações atingem entre 12 e 24 meses de maturidade no uso da ferramenta, o percentual de companhias que relatam resultados acima do esperado despenca para apenas 13,3%.
A retomada da percepção de valor expressivo só volta a acontecer quando as instituições ultrapassam a marca de dois anos de adoção contínua e estruturada, momento em que o índice de sucesso atinge 39%. De acordo com Bruno Horta, diretor-executivo da Peers Consulting + Technology, essa queda acentuada no meio do percurso reflete o momento em que a liderança precisa interromper a experimentação desordenada para reorganizar a casa.
Na visão do especialista, a fase inicial é caracterizada por uma explosão de iniciativas pulverizadas em diversas áreas da empresa. Todavia, à medida que a organização ganha maturidade, surge a necessidade premente de integrar essas ferramentas aos sistemas legados, revisar fluxos de trabalho operacionais, estabelecer métricas rígidas de acompanhamento e implementar uma governança corporativa sólida. É exatamente durante esse período de arrumação e reestruturação interna que ocorre a desaceleração temporária dos ganhos percebidos, antecedendo a fase de ganho de escala real.
A importância da governança e o destaque do setor bancário
O estudo enfatiza que as empresas que obtiveram maior taxa de sucesso com a inteligência artificial generativa foram aquelas que definiram estratégias claras e diretrizes de governança desde os primeiros passos da implementação. A governança no contexto da IA envolve o controle efetivo sobre quais modelos de linguagem utilizar, a decisão sobre centralizar ou descentralizar os projetos nas equipes, o alinhamento com as políticas de privacidade, a identificação preventiva de riscos cibernéticos e a conformidade regulatória.
Apesar dos gargalos enfrentados pela média das empresas brasileiras, o setor bancário e financeiro desponta como a grande exceção de maturidade no país. Entre os bancos pesquisados pelo levantamento, impressionantes 72,7% afirmaram ter superado o business case inicial projetado para suas iniciativas de IA generativa.
O desempenho superior das instituições financeiras é atribuído à capacidade histórica do setor de gerenciar crises, investir volumes maciços de capital em inovação e promover o treinamento contínuo de suas equipes de tecnologia. Mesmo entre os bancos, no entanto, a governança e a gestão da qualidade dos dados continuam a figurar como o principal obstáculo para a expansão de novas aplicações.
As aplicações mais consolidadas da inteligência artificial generativa no mercado atual incluem a automação de processos operacionais repetitivos, a busca por eficiência em larga escala, a personalização da experiência do cliente em canais digitais e a análise preditiva de grandes volumes de dados não estruturados. À medida que a tecnologia evolui, o próprio sistema de IA começa a suprir lacunas de conhecimento técnico dentro das empresas, auxiliando na capacitação de colaboradores e na transição para novas funções profissionais.
O cenário desenhado pela pesquisa reforça que o potencial de transformação da inteligência artificial permanece extraordinário, mas exige pragmatismo. O sucesso da GenAI no ecossistema corporativo depende menos do deslumbre com a tecnologia e muito mais da capacidade de liderança em integrar a ferramenta à estratégia central de negócios, garantindo governança, segurança e sustentabilidade financeira a longo prazo.
O que você precisa saber sobre o retorno financeiro da IA generativa nas empresas
Qual o percentual de empresas brasileiras que têm retorno financeiro com IA generativa?
Segundo estudo do TEC.Institute e da Peers Consulting + Technology, apenas 40,7% das empresas no Brasil conseguem transformar investimentos em IA generativa em resultados financeiros comprovados.
O que é o “vale da escala” na adoção da inteligência artificial?
É o período entre 12 e 24 meses de uso da tecnologia em que os ganhos percebidos desaceleram (caindo para 13,3%). Isso ocorre porque as empresas precisam parar a fase de testes para reorganizar processos, sistemas e governança antes de conseguirem expandir o uso com sucesso.
Qual setor econômico no Brasil teve os melhores resultados com a tecnologia?
O setor bancário destacou-se amplamente no levantamento, com 72,7% das instituições afirmando ter superado os resultados projetados inicialmente em seus planos de negócios com IA generativa.
Quais são os principais usos da IA generativa no ambiente corporativo?
As principais aplicações identificadas são a automação de processos operacionais, a busca por eficiência e redução de custos, a melhoria no atendimento e experiência do cliente e a análise avançada de grandes volumes de dados.

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