Sophia Bush relata agressões que motivaram sua saída de Chicago PD

O desligamento de Sophia Bush do elenco de Chicago PD, anunciado em maio de 2017, causou surpresa entre fãs e críticos da série policial da NBC. Em seu recém-lançado livro de memórias, And I Will Tell You Mine, a atriz detalha pela primeira vez os bastidores que a levaram a abandonar o papel da detetive Erin Lindsay após quatro temporadas. Segundo o relato, episódios de agressão física, intimidação verbal e um ambiente de trabalho descrito como “incontrolavelmente hostil” foram decisivos para a sua saída.

Ambiente hostil nos bastidores da produção

No livro, Bush afirma que a rotina no set passou a incluir gritos, ameaças e contatos físicos não consentidos, sobretudo quando parte da equipe já havia deixado o estúdio. Ela conta que, para tentar se proteger, mudou hábitos pessoais e até reconfigurou sua aparência. “Cortei o cabelo bem curto para que não pudessem puxá-lo”, escreve a atriz, acrescentando que chegou a escolher figurinos mais largos para se tornar “menos visível” durante as gravações.

Efeitos sobre a saúde física e emocional

De acordo com a atriz, o estresse gerado pelas agressões ocasionou uma série de sintomas físicos, entre eles urticária, alterações de peso e crises de ansiedade. Mesmo assim, Bush relata ter suportado a situação por meses, temendo prejudicar a continuidade da própria carreira e de colegas. O limite, segundo o livro, foi alcançado quando as crises de saúde passaram a ocorrer diariamente. Somente depois do desligamento, ela buscou tratamento especializado e foi diagnosticada com transtorno de estresse pós-traumático.

Acusações contra o ator Jason Beghe

Os episódios narrados por Sophia Bush envolvem o ator Jason Beghe, intérprete do sargento Hank Voight, figura central da série. Beghe já havia sido alvo de investigação interna conduzida pela NBC em 2017, após denúncias de comportamento agressivo no set. À época, o ator divulgou uma nota pública na qual pediu desculpas e afirmou estar “trabalhando para modificar atitudes inadequadas”.

Apesar da manifestação de Beghe, Bush sustenta que o problema não se restringia a um dia ou outro de tensão, mas a “uma cultura de abuso que se perpetuava porque muitos temiam denunciar”. Segundo ela, as ocorrências se repetiam especialmente em cenas noturnas, quando o número de profissionais em estúdio era reduzido.

Medidas de autopreservação e decisão de saída

No relato, a atriz descreve ter procurado representantes da emissora em busca de providências formais. Ela afirma que, embora a produtora tenha iniciado uma apuração, o processo se arrastou e não gerou mudanças concretas enquanto ela ainda integrava o elenco. Sentindo-se desamparada, Bush decidiu rescindir o contrato no fim da quarta temporada.

A atriz destaca que a prioridade passou a ser a própria integridade. “Não podia permanecer em um lugar onde minha segurança era tratada como um inconveniente logístico”, escreve. O desligamento, oficializado em comunicado de imprensa poucos dias após o término da temporada, encerrava também a participação de uma das personagens mais populares da franquia One Chicago.

Consequências para a narrativa da série

A saída de Erin Lindsay obrigou a equipe de roteiristas a mudar rumos da trama. Na quinta temporada, a personagem é mencionada como tendo aceitado um trabalho na Unidade de Tarefas do FBI em Nova York, justificativa ficcional para o desaparecimento permanente da detetive. Apesar de especulações recorrentes sobre um eventual retorno, Bush esclarece no livro que nunca foi cogitada a possibilidade de reassumir o papel.

Repercussão e posicionamento do estúdio

Procurada para comentar as declarações contidas no livro, a NBC limitou-se a reiterar comunicado de 2017, no qual confirmava ter conduzido “avaliações internas” após queixas sobre ambiente de trabalho. O canal reforçou que, desde então, implementou novos protocolos de conduta destinados a prevenir assédio moral e físico em suas produções.

Representantes de Jason Beghe não emitiram nova nota até o momento. No pronunciamento de seis anos atrás, o ator afirmou sentir “vergonha do comportamento que exibi” e acrescentou: “Estou comprometido em aprender com meus erros e criar um ambiente profissional respeitoso”.

Marca duradoura na trajetória de Sophia Bush

Desde que deixou Chicago PD, Bush diversificou sua carreira, participando de séries como Love, Victor e assumindo projetos de produção audiovisual e ativismo social. No entanto, a atriz revela que os episódios vividos no set deixaram marcas profundas. “Foram necessários anos de terapia para que eu pudesse falar publicamente sobre o que aconteceu”, afirma em um dos trechos do livro.

Ela acrescenta que decidiu tornar o relato público para incentivar outras pessoas a denunciarem situações semelhantes. “Ninguém deveria escolher entre a saúde mental e o emprego”, pontua.

Impacto na discussão sobre bastidores da TV

A revelação de Bush reforça o debate sobre condições de trabalho em produções televisivas de grande escala. Organizações como a SAG-AFTRA, que representam atores nos Estados Unidos, defendem que denúncias de assédio sejam tratadas com celeridade e transparência. O sindicato não comentou especificamente o caso, mas tem divulgado diretrizes atualizadas para setores de cinema e TV.

Especialistas em recursos humanos apontam que casos de abuso repetitivo tendem a prosperar em ambientes onde mecanismos de fiscalização são frágeis ou inexistentes. A advogada laboral Daphne Green, citada no livro, observa: “Investigações internas sem acompanhamento externo podem falhar em proteger as vítimas, que temem represálias”.

Próximos passos para a atriz e para a série

Sophia Bush continuará a divulgar And I Will Tell You Mine em eventos de imprensa previstos para os próximos meses. Já Chicago PD segue no ar, atualmente renovada para a 11.ª temporada, com audiência estável na TV aberta norte-americana e no streaming. A emissora não prevê o retorno da personagem Erin Lindsay.

A publicação do livro adiciona novos detalhes ao histórico do programa e pode levar a reavaliações internas sobre conduta nos bastidores. Para o público, a obra oferece a perspectiva de uma protagonista que transformou uma experiência traumática em relato documental, levantando questões sobre a responsabilidade de estúdios na proteção de seus elencos.

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