
A União Brasileira de Feiras e Eventos de Negócios (UBRAFE) intensificou, nas últimas semanas, as discussões para criar um sistema capaz de mensurar de forma padronizada o impacto socioambiental gerado pelas empresas que integram a cadeia de feiras, congressos e encontros corporativos no país. A iniciativa é conduzida pelo Grupo de Trabalho ESG (GT ESG) da entidade e pretende unificar indicadores que hoje se encontram dispersos, variando conforme o porte e o grau de maturidade de cada organização.
Objetivo é construir base comum de indicadores ESG
O projeto, de acordo com a UBRAFE, visa consolidar informações sobre consumo de água, energia, gestão de resíduos, emissão de gases de efeito estufa e uso de insumos renováveis. No entanto, a proposta vai além dos indicadores ambientais tradicionais. “Quando falamos em impacto socioambiental, precisamos olhar para além do consumo de água, energia e da gestão de resíduos”, aponta Filipe Fiuza, coordenador do GT ESG. Segundo ele, as condições de trabalho durante a montagem dos estandes, a segurança dos profissionais, o nível de satisfação dos colaboradores, a inclusão e a acessibilidade para públicos diversos são dimensões igualmente estratégicas e que precisam ser avaliadas com rigor.
De maneira prática, a UBRAFE pretende mapear experiências já implementadas por empresas associadas, identificar lacunas de dados e sugerir procedimentos de acompanhamento que respeitem a realidade operacional de cada negócio. “O desafio é reunir essas diferentes dimensões e entender como elas podem ser acompanhadas de forma consistente, respeitando a realidade de cada empresa”, completa Fiuza.
Maturidade desigual no setor de eventos
O segmento de feiras e eventos reúne companhias de tamanhos distintos, que vão de microempresas regionais a grandes operadores de pavilhões. Por esse motivo, o grau de maturidade em pautas de governança, sustentabilidade e responsabilidade social varia bastante. Há organizações que já publicam relatórios de sustentabilidade e mantêm inventários de emissões auditados por terceiros. Outras ainda dão os primeiros passos, concentrando-se em iniciativas pontuais, como campanhas de coleta seletiva ou uso de copos reutilizáveis.
Para acomodar essa diversidade, o GT ESG trabalha na formatação de um questionário unificado que capture tanto ações básicas — por exemplo, descarte correto de resíduos — quanto práticas avançadas, como programas de economia circular e contratação de energia proveniente de fontes renováveis. A compilação dessas respostas formará a primeira fotografia setorial sobre o tema. A expectativa é que o instrumento seja testado em caráter piloto em 2024, aprimorado em 2025 e 2026, e gere relatórios consolidados a partir de 2027.
Referências e experiências já em curso
Entre as referências consideradas pelo grupo está o Guia ESG 2026 do Expo Center Norte, equipamento localizado em São Paulo que vem adotando métricas de rastreabilidade de resíduos, inventário de emissões de gases de efeito estufa e contratação de energia limpa. O documento também destaca ações de economia circular, relacionamento com a comunidade do entorno e programas de inclusão de pessoas com deficiência.
Outros centros de convenções e promotores de feiras relatam progressos semelhantes. Há casos de pavilhões que desenvolveram soluções para reaproveitamento de carpete, redirecionamento de lonas para cooperativas de reciclagem e campanhas de doação de excedentes alimentares a instituições de assistência social. Ao sistematizar essas iniciativas em um único repositório, a UBRAFE pretende oferecer um panorama abrangente que permita comparar resultados, disseminar boas práticas e estabelecer metas progressivas para toda a cadeia.
Ferramentas de mensuração e relatórios anuais
As discussões em torno do futuro instrumento de coleta de dados incluem a definição de metodologias de inventário alinhadas a protocolos reconhecidos internacionalmente, como o Greenhouse Gas Protocol para emissões de carbono e as diretrizes da Global Reporting Initiative (GRI) para relatórios de sustentabilidade. A incorporação dessas referências visa garantir transparência, comparabilidade e aceitação por parte de investidores, patrocinadores e órgãos reguladores.
No âmbito social, o GT ESG avalia métricas sobre diversidade de gênero e raça nas equipes, acessibilidade em pavilhões, programas de capacitação profissional e políticas de combate ao trabalho infantil ou a condições análogas à escravidão. Já na esfera de governança, serão analisados códigos de conduta, sistemas de compliance e mecanismos de engajamento com comunidades locais.
Fase de coleta de dados começa em 2024
A fase inicial do projeto, prevista para o primeiro semestre de 2024, consistirá na aplicação voluntária de questionários entre cerca de 60 empresas filiadas. O preenchimento deverá ocorrer de forma eletrônica, via plataforma que armazenará os dados em nuvem. Na sequência, uma equipe técnica da UBRAFE fará a validação dos números e retornará às empresas para ajustes ou complementações. O cronograma estabelece a divulgação de um sumário setorial no último trimestre do ano, com indicadores agregados e sem exposição individual de resultados.
No médio prazo, a intenção é transformar o levantamento em um relatório anual, publicado em português e inglês, que sirva de referência para investidores estrangeiros, órgãos de fomento e organizações multilaterais interessadas na cadeia de eventos brasileira.
Papel articulador da UBRAFE
Para Paulo Octávio Pereira de Almeida, presidente-executivo da entidade, a UBRAFE desempenha um papel essencial na consolidação dessas informações. “A indústria de eventos já conta com iniciativas importantes de sustentabilidade, inclusive na gestão e na destinação de resíduos. O próximo passo é ampliar essa visão, reunir informações e compreender melhor os impactos da atividade como um todo”, afirma.
Almeida destaca que a UBRAFE atua como ponte entre promotores, montadoras, centros de convenções, fornecedores de serviços e associações de classe, o que facilita a padronização de métricas. “Como entidade representativa do setor, a UBRAFE tem um papel importante em articular essa construção, considerando as diferentes realidades das empresas e criando caminhos para avançarmos coletivamente”, conclui.
Próximos passos e perspectivas
Após a fase de testes em 2024, o GT ESG planeja promover workshops regionais para capacitar empresas que ainda não possuem processos estruturados de mensuração. Estima-se que, em dois anos, a maioria das associadas já tenha implantado sistemas de coleta de dados básicos, permitindo comparações anuais e avaliação de progresso. Paralelamente, o grupo pretende estabelecer metas de redução de emissões e aumento de reaproveitamento de materiais até 2030, alinhadas às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) do Acordo de Paris.
A longo prazo, a ideia é que o banco de dados setorial se integre a plataformas governamentais de transparência e a índices de sustentabilidade reconhecidos pelo mercado financeiro. Com isso, empresas do segmento poderiam acessar linhas de crédito verdes e atrair patrocinadores comprometidos com critérios ambientais, sociais e de governança.
Importância estratégica para o Brasil
O setor de feiras e eventos movimenta anualmente bilhões de reais, gera milhares de empregos diretos e indiretos e influencia cadeias produtivas como hotelaria, transporte aéreo, alimentação e serviços de tecnologia. A construção de indicadores confiáveis sobre o impacto socioambiental da atividade é vista como requisito para consolidar competitividade internacional, atrair congressos globais e fortalecer a imagem do Brasil como destino responsável.
Ao implantar parâmetros comuns, a UBRAFE espera estimular a adoção de práticas sustentáveis por pequenas e médias empresas que, até então, não dispunham de recursos ou conhecimento técnico para estruturar relatórios. Essa padronização também poderá facilitar a atuação de órgãos fiscalizadores e a elaboração de políticas públicas orientadas a reduzir a pegada ambiental de grandes aglomerações.
Com o trabalho do GT ESG em andamento, a expectativa é que, a partir de 2027, a indústria de eventos brasileira disponha de um panorama concreto de seus principais desafios e oportunidades no campo socioambiental. Isso permitirá definir metas factíveis de redução de impactos, monitorar os avanços anuais e evidenciar, em relatórios transparentes, o compromisso do setor com práticas alinhadas às exigências globais de sustentabilidade.

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